domingo, 27 de fevereiro de 2011

Central de Artesanato do Ceará - CEART

Em 1921, quando o comerciante Plácido de Carvalho ergueu um castelo em plena Fortaleza para trazer da Itália sua amada Pierina, não imaginava o destino de sua declaração de amor: a filha Zaíra, que não chegou a habitar a majestosa construção, acabou por vendê-la na década de 1960 a um grupo comercial cuja intenção era erguer um supermercado. A demolição foi feita, mas o empreendimento, jamais. Endividado, esse grupo entregou o terreno ao Estado. Em 1979, a primeira-dama Luíza Távora aproveitou o local para construir a Central de Artesanato do Ceará, a Ceart.


No último dia 14, a praça foi reinaugurada. Passou por uma recauchutagem geral, ganhou fonte interativa, música clássica ambiente, café dentro do vagão que ali repousa e muitos novos frequentadores. “O artesanato cearense tem agora um lugar extremamente agradável para sua comercialização. Com a reinauguração, nós ganhamos muito em vendas”, conta Amanaci Diógenes, a coordenadora de desenvolvimento do artesanato e economia solidária.


Na Ceart, artesão e loja trabalham com a filosofia do mercado justo. “A Ceart não visa lucro. A gente paga o preço justo para o artesão e agrega à peça os custos de comercialização, de embalagem. A estrutura é mantida pelo Governo do Estado. O recurso da venda vai para o Fundo Estadual para Desenvolvimento do Artesanato, que paga a peça que a gente compra do artesão. É como um capital de giro das sete lojas do Estado”, explica.


Engana-se quem acha que o trabalho da Central é voltado para o turista. Uma das bandeiras da Ceart é a divulgação do artesanato cearense entre os próprios cearenses. “A gente mudou o conceito de comercialização para fazer o cearense entender que pode usar o artesanato na casa dele, não só na varanda da casa de praia. Ele tem valor e vai deixar sua casa e o seu escritório com muito mais requinte”. Hoje são 16 ambientes montados na Ceart da praça Luíza Távora.


Mas, afinal, qual o grande diferencial do artesanato da Ceart? Amanaci explica: “Existe uma diferença entre artesanato e trabalho manual. Nós trabalhamos com foco no viés cultural, aquele que retrata nossas tradições, que as pessoas se veem nele. Isso eleva o valor agregado do produto. A gente analisa também a qualidade do produto, se ele é inovador. Não existem marchands para o artesanato, existem curadores. Do nosso ponto de vista, quanto mais tradicional e cultural for essa peça, mais valor ela tem”. Aí é você que escolhe: que tal uma boneca de barro, toda colorida, por R$ 12,90, ou uma linda escultura de arte popular em madeira por mais de R$ 400? “Artesanato é arte. É arte e é cultura, geração de trabalho e renda, valorização das nossas tradições, uma soma de tudo isso”, finaliza.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Exposição de Mário Teles, filho de GTO


Quem está expondo esculturas em BH é Mário Teles, de 68 anos. Filho e assistente do escultor G.T.O (1913-1990), um dos mais importantes artistas mineiros, ele aprendeu o ofício em família. A mostra reúne 10 peças criadas entre 2010 e 2011: são guardas de congado, rodas de músicos, pirâmides humanas, índios e pau de sebo. Mário Teles explica que seu trabalho é pessoal. Ricas em detalhes, as imagens “vêm do pensamento”, diz. As posições das figuras, faces e expressões são únicas: “Não repito trabalhos. Quando começo a fazer uma peça, sei o que quero”. Se o trabalho do pai, “até pela idade avançada”, era mais “rústico e primitivo”, o dele é “mais elaborado e certinho”. Como G.T.O, Mário Teles deixa aparente o rastro do formão. “Tenho orgulho de seguir o caminho dele”, afirma, elogiando a criatividade e a força da arte do pai. “Em qualquer lugar, esse trabalho chama a atenção”, frisa. A dedicação à cultura popular tem explicação: “Minas Gerais é muito rica nesse setor e sou mineiro da gema”, conta o artista. Terapia “Na minha idade, fazer arte também é terapia. Trabalhando, esqueço de tudo”, revela Mário, que gosta de pescar e de futebol, assim como G.T.O. O ingresso na atividade artística foi favorecido pela facilidade para o desenho, além do gosto por artesanato, folclore e circo. O que Mário via no cotidiano reproduzia em casa, usando folhas de papel. Motivo de satisfação: as palestras que faz nas escolas de Divinópolis, onde mora e trabalha, e o contato com o público nas exposições. A tradição passou de geração para geração. O assistente de Mário é o filho, Alex, de 36 anos. Além de “vazar” as esculturas para o pai, ele cuida de outro projeto ambicioso: o Museu G.T.O, instalado no ateliê da família. Lá fica o pequeno acervo de obras, objetos pessoais e ferramentas de trabalho. O avô, conta Alex Teles, gostava mesmo é de esculpir ao ar livre, sob um pé de jabuticaba. O projeto é criar o Instituto G. T. O: o ateliê seria transformado em centro cultural e abrigaria oficinas, exposições e biblioteca. Em 1981, o espaço surgiu diante da necessidade de um endereço para receber turistas que iam a Divinópolis conhecer o artista mineiro. O neto conseguiu verba para algumas reformas, como a restauração da fachada e a construção de banheiros e da sala de exposição. “Isso representa valorização do patrimônio histórico e da cultura da cidade”, explica Alex. A previsão é de que a primeira etapa da empreitada fique pronta até junho, quando se comemora o aniversário de Divinópolis. O Museu G.T.O funciona na Rua Rubi, 283, Bairro Niterói. Está aberto de segunda-feira a sábado, das 8h às 17h.

Mário Teles Escultura. Galeria de Artes do Sesc/MG, Rua Tupinambás, 956, 1º andar, Centro. De segunda a sexta-feira, das 12h30 às 18h. Informações: (31)3279-1462. Até 18 de março. Entrada franca.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Rabecas: Luteria e Performance"


O corpo é áspero, com formato semelhante ao de um violino, a rabeca é um instrumento que reverbera sonoridades agudas. Poesia viva e rústica. Dela parece entoar uma espécie de choro, ao deslizar das mãos daqueles que a tocam cheios de paixão. Preenchendo com seu pranto arranhado corações, saudades e lugares a ermo.



Segundo alguns estudos, o instrumento teria existido em todas as grandes civilizações da Ásia e da África. Chegando a Europa, durante a dominação dos mouros, onde se tornaria bastante apreciada nas mãos dos menestréis medievais. No Brasil, o interior cearense é rico nessa tradição. Fato devidamente comprovado pelo professor e pesquisador Gilmar de Carvalho, e o fotógrafo Francisco Sousa.

"Encontrei em meus estudos referências a um instrumento persa, chamado kamantchê. A rabeca está diluída nos instrumentos de corda da Europa. Não é apenas um violino tosco, como pretendem alguns. O luthier (especialista na fabricação e no conserto do instrumento), Totonho de Mauriti, deu uma definição instigante: ´a rabeca é chorona´. Cada um viaja nas possibilidades desse ´choro´ e se delicia com o improviso das quatro cordas, em pleno sertão", explica Gilmar de Carvalho sobre a origem do instrumento.

A exposição

O pesquisador e o fotógrafo Francisco Sousa começaram em 2003, uma jornada sertão adentro, coletando imagens, histórias e sons de rabeca. A empreitada, que já rendeu o livro "Rabecas do Ceará", acompanhado de um CD com preciosos registros sonoros, dialoga com a exposição "Rabecas: Luteria e Performance", que será aberta amanhã, às 17 horas, no Espaço Cultural Correios.

Com curadoria de Carvalho e fotos de Sousa, o projeto foi contemplado pelo edital do Espaço Cultural Correios, desvendando o mundo sagrado da tradição, da construção do instrumento à performance. "Nunca os meios técnicos foram tão úteis para uma expressão de visão de mundo, de vida, de uma escrita etnográfica. A exposição traz de volta à cena os rabequeiros, luthiers. Algumas rabecas serão mostradas, seus sons serão ouvidos, imagens em movimento estarão sendo exibidas. Tudo com a marca do trabalho insano que o Francisco Sousa vem fazendo pelo Ceará, desde 2003", diz o curador.

Pelo olhar e a sensibilidade de Francisco Sousa, podemos captar o modo de fazer, de tocar, as experiências de vida, as expressões, a madeira que se transforma, as mãos sempre calejadas ou feridas dos músicos-artesãos que fazem e executam o seu próprio instrumento.

Sobre o processo curatorial, Gilmar de Carvalho conta que, depois do livro impresso, ele descobriu mais rabequeiros. "É como se esse pessoal e esse material estivesse em camadas da memória que precisam ser revolvidas. Um trabalho de arqueologia, que revela surpresas e mexe com o acaso", explica.

Traçar o recorte frente à riqueza da pesquisa não foi tarefa fácil. "Fazer um recorte que levasse em conta a valorização das fotografias do Francisco Sousa (o instante epifânico do ato fotográfico), a inserção das rabecas na cultura, o contexto cearense, as histórias de vida, a luteria improvisada, a questão da memória foi sofrido. O diálogo com o Francisco foi constante. E deve prevalecer, mais que um didatismo, uma visão de equilíbrio e harmonia, o que não é fácil quando se tem tanto material", acrescenta.

O trabalho de Sousa "emociona como registro de uma manifestação cultural que se transforma para permanecer". A exposição nos transporta às imagens comoventes da "luteria". Em cumplicidade com a natureza, os rabequeiros utilizam o material ao seu alcance: talos de carnaúba, canos de PVC, madeiras como pinho e umburana.

"Vou para os extremos: a rabeca de lata, encontrada em São Benedito, que pertenceu a Luiz Costa e a rabeca de PVC e madeira, "fabricada" por Chico Barbeiro em Baixio. Parecem-me representativas da diversidade dos materiais e técnicas, do desejo de fazer música e de interferir na cultura. O visitante vai se deparar com rabequeiros e luthier oriundos dos Inhamuns a Ibiapaba, do Cariri ao Sertão do Canindé, do Vale do Jaguaribe ao Sertão Central, embalados aos sons que preenchem o oco do mundo", ressalta o pesquisador.

Fique por dentro
Rabecas do Ceará

Conforme Gilmar de Carvalho, as rabecas sempre ficaram de fora dos estudos sobre cultura cearense. A exceção ficava por conta do Cego Oliveira, gravado e filmado pelo Rosemberg Cariry. Mesmo as menções ao toque de rabeca do Cego Aderaldo eram marcadas pela incompletude. "A ideia de ´perseguir´ rabequeiros veio do Francisco Sousa. Em meio às viagens que fazemos, fomos acumulando material e veio o livro ´Rabecas do Ceará´ (edição de 2006, lançada pela Expressão Gráfica)".

Os primeiros entrevistados e fotografados foram o Zé Oliveira (Juazeiro do Norte) e o Raimundo Veríssimo (Itapipoca), ambos falecidos em 2010. Depois, veio o Mestre Vino (Irauçuba), o Antonio Hortêncio (Varjota) e o interesse dos dois foi se acentuando. Em março deste ano, nos dias 18, 19 e 20, haverá o I Encontro dos Mestres da Rabeca e a nova geração de rabequeiros do Ceará, no Sesc Senac Iracema. Na programação haverá o relançamento do livro de Gilmar de Carvalho.

MAIS INFORMAÇÕES

Exposição "Rabecas: Luteria e Performance", de Francisco Sousa, com curadoria de Gilmar de Carvalho. Abertura amanhã, às 17 horas, no Espaço Cultural Correios (Rua Senador Alencar, 38, Centro). A mostra segue em cartaz até 26 de março. Visitas de segunda a sexta, das 8h às 17h. Aos sábados, das 8h às 12h. Entrada gratuita. Contatos: (85) 3255.7260.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Jornada de Estudos Poéticas da Oralidade


Prosseguiram os debates na Jornada de Estudos Poéticas da Oralidade, promovida pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB.
Duas mesas foram realizadas na tarde de hoje.
A primeira: "Como transformar um tesouro em patrimônio" discutiu as possibilidades de acesso e difusão do acervo da Biblioteca Átila Almeida. Com a compra da coleção do professor Gilmar de Carvalho, o acervo da UEPB passou a ter cerca de 15.000 folhetos e foram apresentados resultados das ações para conservação e difusão do acervo.

A segunda mesa "O universo dos cordelistas, cantadores e editores" discutiu aspectos da oralidade e da escritura do cordel, almanaques e cantoria na contemporaneidade.

De novo: Resultado Edital Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré

O Ministério da Cultura, por meio da Secretaria de Articulação Institucional, divulga o resultado dos recursos interpostos referentes à fase de Avaliação e Seleção do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré, conforme publicação no DOU nº 26, de 7 de fevereiro de 2011, seção 3, pag. 10.

O edital teve 54 recursos, dos quais 51 foram indeferidos e apenas 3 deferidos. No entanto, o resultado do recursos deferidos não alterou a ordem de colocação dos proponentes classificados dentro da cota de premiação, conforme lista publicada no DOU nº 244, de 22 de dezembro de 2010, seção 3, pag. 42.

Veja aqui

Edital Programa Cultural das Empresas Eletrobras 2011

Estão abertas as inscrições para o Programa Cultural das Empresas Eletrobras 2011, que vai apoiar projetos de todo o país em três segmentos: teatro (produção de espetáculos e festivais de teatro), audiovisual (longa-metragem e festivais de cinema) e patrimônio imaterial (difusão de manifestações culturais tradicionais). A novidade desta edição do programa é a inclusão de peças teatrais infanto-juvenis, ao lado do teatro adulto, entre as áreas patrocinadas.

As inscrições foram prorrogadas até o dia 13 de abril e devem ser realizadas em www.eletrobras.com/editalcultural. Nesse endereço, você também encontra informações sobre o processo de seleção e acessa o edital e o roteiro para elaboração de projetos (Manual do Proponente) do Programa Cultural das Empresas Eletrobras 2011.

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular apresenta exposição Senhores da Terra

“Poéticas da oralidade: reinvenção e reescrituras”

Um evento que tem como objetivo trazer à tona a discussão sobre a cultura popular, muitas vezes deixada de lado pela academia e até pela própria sociedade, teve início hoje (07) pela manhã, no Centro de Arte e Cultura da UEPB, em Campina Grande. “Poéticas da oralidade: reinvenção e reescrituras” é o tema da 1ª Jornada de Estudo Internacional sobre Poéticas da Oralidade que a Universidade Estadual da Paraíba realiza até amanhã. A abertura contou com a participação do professor Rangel Junior e a conferência de abertura foi ministrada pela convidada Ria Lemaire.

poet3A organizadora do evento, professora Joseilda Diniz, lotada na UEPB através da Pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PRPGP), proferiu as palavras iniciais do evento, reforçando justamente o objetivo de trazer a discussão de um tema muitas vezes obscurecido. Em seguida, chamou à mesa o pró-reitor de Planejamento da UEPB, Rangel Junior, na ocasião, representando a reitora Marlene Alves. O professor comentou a presença de alguns artistas da terra, em especial da teatróloga Lourdes Ramalho, escritora conhecida de literatura e teatro popular que inclusive dá nome a um teatro em Campina Grande.

Rangel Junior também reforçou o caráter de cultura popular desta Jornada. “Vamos discutir a tradição da cultura popular, mas não somente. Temos a idéia de que tradição deve ser tratada como algo congelado no tempo. Creio que a tradição pode ser também renovada e atualizada, e aspectos deste evento confirmam isso, a começar pelo cartaz, pelas discussões, pelos convidados”, disse o professor. Ele acrescentou que a UEPB reforça seu caráter de contribuir com a cultura, através da socialização desta, e o faz através de eventos como esse, com a aquisição de um acervo como o que hoje forma a Biblioteca Átila Almeida e a construção do futuro museu do Artista Popular, às margens do Açude Velho, cartão postal da Serra da Borborema.

Ria Lemaire

poet2Antes do início da conferência, a professora Joseilda Diniz teceu algumas palavras sobre sua experiência com a professora Ria e a importância desta em sua carreira de pesquisadora. “Tive o privilégio de trabalhar com Ria Lemaire por 10 anos e por causa dela, fui empurrada, literalmente a revisitar minhas raízes. Ao chegar à França, pensei em fazer um trabalho em francês e vi que num lugar distante e estrangeiro, era muito mais valorizada a produção popular do que aqui em nossa terra”, relatou Joseilda.

Assim começou a parceria que resulta nesta visita da professora da Universidade de Poitiers-França, Ria Lemaire, hoje, em Campina Grande. Porém, a história desta pesquisadora com a cidade é antiga. “Para mim, é um prazer voltar aqui, uma vez que foi a primeira cidade brasileira a qual eu conheci melhor, ainda na década de 1970, trazida por um colega de origem holandesa que morava em Recife. Quando cheguei aqui, comi a famosa carne de sol, que até hoje é um dos meus pratos favoritos no Brasil”, comentou despojadamente. Suas vindas para esses lados não acabarão neste evento. No momento, ela escreve um livro com Lourdes Ramalho que deverá ser lançado em agosto deste ano. Até lá, outros encontros de pesquisa deverão surgir e o lançamento está previsto também na cidade.

Em sua fala, Ria Lemaire discorre sobre a cultura popular, especialmente no Brasil, que tem o propósito de que ensinamentos sobre seu próprio povo, sua gente, sua terra, sirvam a gerações futuras. “Com o passar do tempo, se percebeu que cultura popular não é coisa de gente pobre, da classe baixa. O sentido tradicional da palavra povo designava civilização, que por sua vez representava conhecimento. Com o tempo, esse sentido foi se perdendo e só no século XX, tentamos resgatar esse sentido original”.

poet5“Poetas como o paraibano José Alves Sobrinho usavam a palavra povo em seu sentido primeiro, de comunidade”, disse Ria, acrescentando que aqui mesmo, em Campina Grande, possuímos um espaço magnífico para a pesquisa popular: a Biblioteca Átila Almeida, da UEPB. Espaço que abriga o acervo do professor Átila Almeida, que já tinha uma parceria com o poeta José Alves.

Parecendo bastante atualizada, Ria Lemaire falou, ainda, da nova aquisição da Biblioteca, que foi o acervo de cordéis do professor Gilmar de Carvalho. “A pesquisa de Gilmar tem um caráter especial, pois foi baseada no diálogo com os poetas e é algo que vale a pena conferir”, disse a pesquisadora.

Demonstrando que até as grandes pesquisas e instituições reconhecem a importância de tal fato, em 1997, a UNESCO (sigla em inglês para Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) criou a distinção Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, com o objetivo de reconhecer e preservar patrimônios, como o nome já diz, não-materiais, mas nem por isso, não menos importantes. A primeira lista de bens inscritos foi divulgada em 2001.

O Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, também chamado Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade, é uma honraria para a proteção e o reconhecimento do patrimônio cultural imaterial, abrangendo as expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em respeito da sua ancestralidade, para as gerações futuras. São exemplos de patrimônio imaterial: os saberes, os modos de fazer, as formas de expressão, celebrações, as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e outras tradições.

poet4Ria Lemaire terminou sua conferência de abertura falando que a pesquisa em cultura popular está em processo, tentando encontrar seu paradigma. “Pesquisa exige método, que exige teoria, que exige fundamento. E esta prática está acostumada com outra formatação científica. O método de estudo com cordel, cantorias, entre outros, exige a observação de aspectos outros, que estamos em processo de construir. É um novo paradigma que estamos tentando desenvolver”, afirmou.

A manhã terminou com a mesa redonda “O universo de Lordes Ramalho”, com a participação da própria teatróloga, com mediação da primeira conferencista, Ria Lemaire, ambas parceiras em um livro, como já dito, a ser lançado ainda este ano. Entre os intervalos, podiam ser adquiridos diversos cordéis, expostos no hall, além da exposição de cordéis no jardim do Centro de Arte e Cultura da UEPB, que fica no Centro da cidade, ao lado do terminal de Integração. A tarde seguiu com um diálogo franco-ibero-brasileiro, numa mesa redonda com participantes de diferentes partes do mundo, mediado pelo professor Rangel Junior. A 1ª Jornada de Estudo Internacional sobre Poéticas da Oralidade segue até amanhã.


I Feira de Literatura de Cordel do Sertão

Dia 25 de março/2011
No Museu do Cangaço - Serra Talhada/PE.

19h30min – Apresentação do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião
20h00min: Recital com os poetas:

      ü Chico Pedrosa
      ü Dedé Monteiro
      ü Edgar Diniz
      ü Felipe Júnior
      ü Caio Menezes
      ü Dudu Morais
      ü Dulce Lima
      ü Genildo Santana
      ü Adeval Soares
      ü Neide Nascimento
      ü Paulo Moura
      ü Gilberto Mariano
      ü Rui Grude
      ü Damião Enésio e Zé Pereira

Patrocinio :
Programa BNB de Cultura 2011
BNDES/Governo Federal

Apoio:
UBE/PE – NEC – Núcleo de Estudos do Cangaço
Academia Serratalhadense de Letras
Unicordel
Ponto de Cultura APDTA
SEBRAE


Realização:
PONTO DE CULTURA CABRAS DE LAMPIÃO

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FUNDAÇÃO CULTURAL CABRAS DE LAMPIÃO
Rua Virgolino Ferreira da Silva, 06 - COHAB
Serra Talhada - Pernambuco - CEP: 56.909-110
Tel: (87) 3831 3860 / 3831 2041 / 9918 5533 / 9938 6035
E-mail:
cabrasdelampiao@gmail.com
Site:
www.cabrasdelampiao.com.br

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Psicanalista Maíra Soares Ferreira recebe Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel com pesquisa sobre heranças culturais em SP

Tal como ocorre em muitas escolas do ensino fundamental e médio no Brasil, às vésperas do Dia do Índio – celebrado em 19 de abril – os alunos de um colégio público situado na favela Real Parque, no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo, costumam preparar cartazes alusivos à data comemorativa que são espalhados pelas salas de aula.

Mas, ao observar os desenhos e imagens que ilustram os trabalhos escolares durante seu trabalho de mestrado, defendido em agosto de 2010 na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), a psicanalista Maíra Soares Ferreira não encontrou nenhuma referência à etnia afro-indígena Pankararu, originária do sertão pernambucano, da qual muitos dos estudantes no colégio são descendentes.

Na tentativa de estabelecer um diálogo entre o passado e o presente dos estudantes e de integrar sua cultura com a da escola, Maíra iniciou em 2007 uma pesquisa e intervenção com uma turma de 30 alunos da sétima série do colégio público paulista. O estudo resultou em um método de ensino da cultura e história afro-indígena que pode auxiliar os educadores a abordar esse assunto em sala de aula, conforme determina uma nova lei.

Sancionada em março de 2008, a Lei nº 11.465/08 tornou obrigatório o ensino sobre a história e a cultura afro-indígena em todos os estabelecimentos de ensino fundamental e médio, das redes pública e particular, no país. Mas deixou a cargo dos educadores desenvolverem suas próprias metodologias de ensino para isso.

“A lei é muito importante. Porém, é preciso utilizar métodos didáticos que partam da própria história da comunidade onde a escola está inserida para ensinar a história e a cultura afro-indígena. Afinal, toda escola pública no Brasil tem sua comunidade afro-indígena”, disse Maíra.

Retorno às origens

Sabendo das origens dos estudantes da escola da favela Real Parque, a psicanalista viajou para a região do Brejo dos Padres, em Pernambuco, onde está localizada a aldeia indígena Pankararu, e de onde grande parte das famílias dos estudantes partiu no início da década de 1950 rumo a São Paulo para trabalhar em obras como a construção do estádio do Morumbi.

No sertão nordestino, além das tradições dos Pankararu, Maíra deparou com diversas manifestações da cultura popular, como o cordel, a cantoria de viola e o coco de embolada, que registrou em vídeo.

Na volta da viagem, Maíra apresentou os vídeos aos estudantes e chamou a atenção deles para as semelhanças entre as rimas, improvisos e a poesia do cordel e dos repentes nordestinos com um gênero musical que a maioria deles apreciava: o rap.

“Eu percebi que nos intervalos e nas aulas vagas eles se reuniam em grupos e ficavam escutando rap, desenhando ou fazendo letras de música”, disse.

Com base nisso, ela encontrou um canal para que os professores pudessem discutir de uma maneira didática com os estudantes questões como a migração, o sertão, a urbanização, a escravidão e a formação de favelas nas grandes metrópoles brasileiras.

De acordo com Maíra, as criações poéticas e musicais representaram o esforço dos estudantes de resistir à negação de origens e identidades e um meio de recombinar suas histórias e expressões culturais. E, com isso, se afirmarem política, social e etnicamente.

O trabalho, que contou com apoio da FAPESP, foi distinguido na categoria de pesquisa no Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré, lançado pelo Ministério da Cultura (Minc) em março de 2010 para incentivar a realização de trabalhos relacionados à literatura de cordel.

O estudo está disponível no Banco de Teses da USP, emwww.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-30082010-102212/pt-br.php

Elton Alisson
Agência FAPESP